Observatório Político
Hércules Corrêa completaria 81 anos de idade e não deve ser esquecido
É dele, e está na abertura de seu livro Memórias de um Stanilista a narrativa que se segue: “Nasci em um manicômio. Mais exatamente no asilo de loucos do distrito de Amarelo, em Cachoeiro de Itapemirim. Era o dia 16 de dezembro de 1929. Desempregado, meu pai fora contratado para fazer a reforma daquele hospício, moradia, dele e da família como parte do pagamento. Ele tinha como ajudante um senhor com a idade da minha irmã, Hilda, e parecidíssima com ela, segundo me contaram. Aquele homem fora paciente do manicômio, mas os médicos o consideravam curado. Certo dia a mulher dele foi à cidade fazer compras e meu pai passou pela casa onde o tal ajudante morava. Era hora do almoço e o sujeito mexia um tacho fervente, tirando de dentro dele grandes pedaços soltando fumaça e os enfiava gulosamente na boca, acompanhando a mastigação de um falatório bastante confuso. Meu pai estranhou a cena e aproximou-se para ver melhor. Recuou horrorizado quando percebeu que os pedaços dentro do tacho eram de um corpo humano. O ajudante matara e agora estava almoçando a própria filha. Tinha 12 anos de idade quando cheguei ao Rio de Janeiro para morar na casa de minha irmã Hilda. Acostumado a me virar, fiz uma caixa de engraxate, comprei o que precisava para começar, com o pouco dinheiro que trouxera comigo do Espírito Santo, e fui para debaixo da Ponte dos Marinheiros. Ganhava dinheiro engraxando sapatos. No Rio daquele tempo havia pobreza, mas o ganho das pessoas modestas era mais compatível com seus gastos. Com uma passagem de 100 réis dava para ir de bonde do centro da cidade ao Méier. Fazia-se uma refeição com 11 pratos, começando pela sopa e terminando com a sobremesa, tudo por 400 réis, no China. Vestia-se e calçava-se comprando peças em qualquer brechó a preços bem baratos. Enfim, a pobreza era menos agressiva, não era miséria. Além de engraxate, fui ajudante de cozinheiro, servi café da manhã às prostitutas na zona do meretrício, o histórico Mangue, que como me contou Luiz Carlos Prestes era o logradouro carioca favorito de Ho Chi Min quando o então futuro líder da revolução vietnamita esteve por aqui em 1922. A zona era também um de meus lugares favoritos no Rio de Janeiro, e não foi à toa que as prostitutas da área fizeram campanha para mim em minha primeira candidatura como deputado estadual. Devo minha eleição em grande parte a elas que a cada cliente que atendiam entregavam um panfleto pedindo votos para mim. Ali, na zona, vi pela primeira vez a atividade sindical sendo praticada por motorneiros e condutores de bonde que lá se reuniam depois do trabalho. Fui ainda vendedor de laranjas, carregador de marmitas, garçon, faxineiro e, finalmente, tecelão, como minha mãe. Adorava carnaval e futebol. Joguei no São Cristóvão e no Madureira. Entrei no PCB no dia 8 de janeiro de 1944. Tinha 14 anos. Trabalhava como faxineiro na fábrica de tecidos Vitória Régia. Por vontade de ser alguém abracei o combate contra a pobreza. As injustiças sociais e a falta de democracia política me tocavam muito de perto. Tive muitas turras com o presidente João Goulart. Mas fomos bons amigos. O que mais me preocupava era compreender como um homem rico, proprietário de terras- o típico burguês- tinha um comportamento como aquele, cioso do seu comprometimento com os trabalhadores e com o movimento sindical. Creio que o mês de março de 1964 foi o mais tenso da minha vida. Acho que ninguém em sã consciência queria acreditar que aquilo estivesse para acontecer. No entanto, era tão evidente... Quando aconteceu o golpe, estava afogado em oito cargos de intensa atividade política. Era presidente do Sindicato dos Têxteis, presidente da Comissão Permanente das Organizações Sindicais do Estado da Guanabara, membro do conselho nacional da CNTI, membro da direção executiva da CGT, deputado estadual, secretário da bancada parlamentar do PTB, membro da comissão executiva do PCB- Rio e membro efetivo do comitê central do PCB, respondendo por sua seção sindical nacional. Logo após o golpe militar fiquei cinco dias zanzando na rua, sem lugar para ficar. Ninguém queria me esconder em casa, pois eu estava sendo procurado em toda parte. Já o noticiário, não sei por quê, me dava como morto. Esse boato sobre minha morte circulou até 1966. Fui parar em um sítio do partido, em Jacarepaguá, abandonado desde 1958, onde permaneci, sozinho, durante mais de dois meses.” Declaração de Carlos Arthur Pitombeira, editor do JBJ- Jornal da Barra e Jacarepaguá: Desde sua filiação ao PMDB, convivi muito de perto com Hércules Corrêa. Juntos, e a seu convite, fiz parte de um pequeno grupo que trabalhou muito na fundação do PMDB-Rio (o Diretório municipal do partido) em memorável convenção na sede da ABI. Ninguém, até então, lembrara que a constituição de 1988 assegurava aos partidos políticos a criação de seus diretórios nas capitais. Hércules, não. O PMDB da capital deve muito a ele. Seu apartamento, no Flamengo, a residência no Largo do Machado, a casa de Cavalcanti ou a de Piedade, onde viveu seus últimos dias, sempre foram endereços certos de seus amigos de sempre e os de ocasião, além de políticos de todas as idades e ideologias. Hércules era um socialista convicto e um arquivo vivo da política e das atividades sindicais de sua geração. Seu aniversário, ocorrido no dia16 de dezembro último, quando completaria 81 anos, não pode ser esquecido. Certamente teria sido comemorado do jeito que gostava: em casa , ao lado dos filhos Diógenes e Diácomo, com os amigos e falando de política.
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